O 10 de setembro, Dia Mundial de Conscientização sobre a Preservação da Vida, integra a campanha do Setembro Amarelo. Mas, para além da data, o convite é claro: pensar a preservação da vida como tarefa contínua, que ultrapassa os limites de um mês e se estende por todo o ano, em cada encontro clínico e em cada gesto de cuidado.

“Assim, não sabendo crer em Deus, e não podendo crer numa soma de animais, fiquei, como outros da orla das gentes, naquela distância de tudo a que comummente se chama a Decadência. A Decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida.” - Livro do Desassossego, Fernando Pessoa

O niilismo poético de Pessoa sugere um vazio que, longe de ser neutro, carrega um acúmulo doloroso — como se a consciência se dispersasse sob o peso do insuportável.

Na clínica, isso encontra eco nos quadros de apatia. Embora costumemos interpretá-la como ausência, a apatia frequentemente reflete um corpo e psiquismo saturados pela dor — um limiar psíquico onde a motivação ou a emoção se esvaziam.

Pesquisas mostram que, em casos de depressão e outras condições relacionadas, a apatia se manifesta como perda de iniciativa, falta de interesse e empobrecimento da expressão emocional. Esse quadro está ligado a alterações em áreas do cérebro que regulam a motivação e o engajamento (Marin, 1991, Husain & Roiser, 2018, Le Heron et al., 2022). Embora pareça apenas silêncio, trata-se de um silêncio denso — um esgotamento de afetos e respostas, fruto de uma dor acumulada que vai além das palavras.

Apatia e depressão: distinções clínicas necessárias

Apatia pode acompanhar a depressão, mas também pode existir além dela.

Robert S. Marin descreveu a apatia como uma síndrome distinta da depressão — podendo acompanhar um quadro depressivo ou surgir isoladamente (Marin, 1991).

Em contextos neurodivergentes, é essencial reconhecer que traços semelhantes à apatia também podem refletir modos adaptativos de lidar com o mundo, e não necessariamente um estado patológico.

  • No Transtorno do Espectro Autista (TEA), o que parece apatia pode estar ligado à sobrecarga sensorial, resultando em retração, silêncio ou falta de expressão — um “shutdown” que funciona como mecanismo de proteção psíquica (Reframing Autism, 2023).
  • Em perfis da personalidade esquizoide, a frieza emocional ou a preferência pelo isolamento não indicam necessariamente sofrimento depressivo, mas sim um estilo de funcionamento emocional diferente. O DSM-5 descreve esse transtorno como um padrão persistente de distanciamento das relações sociais e expressão emocional restrita, sem que isso seja obrigatoriamente acompanhado de tristeza ou desesperança (American Psychiatric Association, 2013). Revisões clínicas também reforçam que o isolamento no esquizoide pode refletir baixa necessidade de afeto interpessoal, em vez de um estado depressivo latente (Paris, 2005; Triebwasser et al., 2012).

Evidências clínicas para diferenciar apatia e depressão

Segundo Robert e estudos posteriores (Husain & Roiser, 2018), alguns marcadores ajudam a identificar quando a apatia está relacionada à depressão e quando não:

  • Apatia relacionada à depressão
    • Vem acompanhada de tristeza profunda, desesperança e sentimentos de culpa.
    • Presença de ideação negativa ou mesmo ideação suicida.
    • Comprometimento afetivo evidente, com sofrimento relatado pelo paciente.
  • Apatia como condição independente
    • Ausência de tristeza ou desesperança significativa.
    • Predomínio de perda de interesse, iniciativa e engajamento, mas sem relato subjetivo de sofrimento intenso.
    • Pode estar associada a condições neurológicas, neurodesenvolvimentais ou a traços de personalidade (como no esquizoide).

O papel da terapia

Escutar o silêncio e devolver sentido ao existir

A apatia pode surgir em diferentes contextos: como sintoma de um quadro depressivo, como forma de regulação em neurodivergências ou até como traço de personalidade. Em qualquer cenário, reduzi-la a “falta de vontade” é insuficiente.

É aqui que a terapia se mostra essencial. O trabalho clínico não busca simplesmente eliminar a apatia, mas compreender sua função e o que ela expressa no sujeito. Muitas vezes, aquilo que parece ausência é, na verdade, presença densa de dor ou um modo de proteção frente ao excesso da vida.

woman in white long sleeve shirt writing on white paper
Photo by Kateryna Hliznitsova / Unsplash

Na escuta terapêutica, o silêncio ganha lugar, e a apatia deixa de ser vista apenas como vazio. A clínica abre a possibilidade de transformar esse estado em caminho de elaboração, oferecendo ao sujeito novos modos de estar no mundo — com dignidade, vínculo e sentido.

Assim, o papel da terapia é justamente este: sustentar a vida em sua complexidade, mesmo quando ela se apresenta como silêncio ou retração.